"A arte é uma magia que liberta a mentira de ser verdadeira" Theodor Adorno

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Doce Vingança, de Nora Roberts

Queria um drinque, não o café e o chá que sempre eram servidos, mas um vinho. Apenas um copo de vinho gelado. Mas nenhum vinho era permitido em Jaquir, enquanto o estupro sim, pensou ela, ao encostar um dedo no rosto dolorido. Surras e véus, chamadas para a oração e poligamia, mas não uma gota de Chablis ou um cálice de Sancerre.
(ROBERTS, Nora. Doce Vingança, pag. 29-30)

   A Princesa Adrianne é uma criança em Jaquir, um país no Oriente Médio. Lá, é acostumada às mulheres no harém, sempre falando sobre sexo, compras e jóias, mulheres que, submissas ao homem, devem usar abaayas para não tentá-los. Mas ela nunca pode se acostumar à constante repressão do homem que, além de seu pai e Rei de Jaquir, desposou a linda estrela de cinema Phoebe Spring entregando a ela o famoso colar O Sol e a Lua, de valor inestimável, com a promessa de uma vida exótica e bela longe daquilo que a atriz conhecia, apenas para trocá-la por outras mulheres e amaldiçoá-la por ter dado à
Doce Vingança, de Nora Roberts,
lançado em 1988
luz uma filha, Adrianne, e não um filho.
   O ponto inicial de Doce Vingança (Sweet Revenge), de Nora Roberts, lançado em 1988, é a infância turbulenta por qual Adrianne vive, no castelo em Jaquir, aprendendo que a mulher, de cabeça baixa, deve dar bons filhos ao marido e ser uma serva de Alá, isso porque, se fizer diferente, a polícia religiosa a castigará. Conhecendo as jóias desde criança, ela sabe perfeitamente diferenciar uma falsa de uma verdadeira. Sua obsessão pelo O Sol e a Lua crescem à medida que, após fugir de Jaquir para os Estados Unidos com a mãe quando tinha oito anos e testemunhar a volta decadente da atriz Phoebe Spring ao cinema, a mãe droga-se cada vez mais e é mais ainda manipulada por agentes. Adrianne sente que precisa deste colar, que o Rei confiscou da mãe, para sua vingança.
   Phillip Chamberlain, um inglês, agora é um agente da Interpol. Antes, fora um ladrão tão bem sucedido que levava uma vida confortável, e até propiciara à mãe uma vida melhor. Aposentado de seus roubos de jóias, ele tem a missão de encontrar O Sombra, o ladrão de jóias mais procurado pela polícia. O que Phillip provavelmente não esperava era encontrar Adrianne, a princesa, e apaixonar-se por ela, apesar da frieza e medo inicial que ela radia. Os dois, combinando conhecimentos acerca de jóias e ações, embarcam numa aventura muito bem descrita por Nora Roberts, onde há suspense, romance, cada cenário pintado meticulosamente para dar ao leitor a impressão de assistir bem de perto todos os acontecimentos.

— Mas O Sol e a Lua significa tudo. Não há nada que valha mais em Jaquir, não pelo valor monetário. Está além de qualquer preço. É uma questão de orgulho e força. Se sair das mãos da família real, haverá revolução, derramamento de sangue, o desmoronamento do poder. A inquietação nas fronteiras de Jaquir varrerá o país.
(ROBERTS, Nora. Doce Vingança, pag. 361)

   É uma história sobre família, sobre reconhecimento do amor e da paciência, o doce sabor da vingança que é capaz de alimentar boa parte da vida de alguém, e é uma história sobre não ser generalista. O que quer que as mulheres do harém sintam em sua realidade, o que quer que Adrianne tenha aprendido no mundo Ocidental, o que quer que a religião em Jaquir pregue ou as crenças cristãs, cada pessoa tem sua maneira de encarar a realidade, e muitas conseguem conviver e entender aquilo que outras não podem compreender.
   Lembro que tive esse livro em mãos durante alguns anos. Sempre me interessou, porém por algum motivo só agora consegui pegá-lo novamente e ler até o fim. Ainda bem que fiz isso! Devo confessar que Nora Roberts sempre me surpreende, não por ter surpresas durante o livro, mas pela sua maneira de escrever que, parecendo tão simples e despretensiosa, é capaz de marcar a história em meus pensamentos, e nos pensamentos de vários outros leitores. O livro é divido em três partes, com subtítulos seguidos de citações, sendo eles: O Amargo, O Sombra e O Doce.
   Recomendo o livro, pois, além do nome de Nora Roberts falar por si mesmo, tão reconhecimento que ela possui atualmente, é uma história inteligente, muito bem escrita, que abrange ambos o mundo ocidental e oriental, e é um ótimo lembrete do feminismo, o que isso significa de um lado do oceano e do outro.

Ninguém a conhecia. Nem mesmo Celeste compreendia plenamente os conflitos e dúvidas que a dominavam. Era princesa de uma terra que não era mais a sua. Era visitante num país que continuava a lhe ser estranho. Era uma mulher que tinha medo de ser uma mulher. Uma ladra que queria justiça.
(ROBERTS, Nora. Doce Vingança, pag. 252)


Escrito por MsBrown

3 comentários:

  1. Flor, meu primeiro contato com Nora foi através da sua nova quadrilogia, o Quarteto de Noiva. Achei o cenário bastante real, e ela escreve muito bem mesmo, mas confesso que esperava mais... acho que depositei muitas expectativas por nunca ter lido Nora Roberts antes. Porém, quero continuar lendo a trama, e quero poder ler outros dela, também. Esse resenhado, por exemplo, é uma ótima opção... parece ser mesmo bem inteligente, e eu adorei seus comentários. Enfim... você já leu dela FORA DA LEI? Queria saber se é mesmo bom...

    Um abraço!
    http://universoliterario.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Olá, Fran! Aprecio os comentários. Bom, eu não li Fora da Lei ainda. Eu posso te indicar Segredos e A Pousada no Fim do Rio, porém eles são muito parecidos com Doce Vingança, conta a história da personagem principal desde quando era criança e possui outras semelhanças. Entretanto, Segredos é um dos melhores livros que li (há algum tempo já), e eu acho que vale a pena lê-los!

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  2. Também tenho um livro da Nora em casa que, embora já faça um bom tempo que está em minhas mãos, nunca o li. Não é esse, não me lembro exatamente qual é, mas sua postagem me inspirou a pegá-lo novamente e tentar ler até o fim.
    Agora sobre a resenha, devo confessar que já fui muito fã desse gênero, já tive uma fase de ódio terrível, mas agora estou voltando a gostar de um bom e velho romance.
    Nora é demais, e trazer como lembrete o feminismo/machismo é sempre uma boa (embora eu me irrite fácil quando o assunto é a submissão da mulher, kkk).

    Tava com saudades do seu blog,

    Beijos,

    ser-escritora.blogspot.com.br/

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